O fim do cacto milagroso

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Pelo menos no Brasil, o poderoso Hoodia Gordonni não poderá mais ser usado por quem sempre buscou um milagre para emagrecer

Por Viviane Aguiar

"Hoodia Gordonii: o extrato vegetal que reduz em até 40% a fome". Depois de ler essa frase em um site americano, a carioca Tamara Mazaracki ficou intrigada. Foi atrás de mais informações e descobriu que a tal substância vem de um cacto africano usado há séculos pelos viajantes que atravessam os desertos sem ter o que comer ou beber. A inocente plantinha acaba com a sensação de fome por um motivo muito simples: possui o P57, um componente que imita a glicose e engana o organismo dando a falsa impressão de que o estômago já está bem servido.

A descoberta fez com que Tamara, que é médica ortomolecular e nutróloga do Espaço Médico no Rio, entrasse praticamente em euforia. Afinal, o Hoodia poderia ser aquele "milagre" que a maioria das pessoas com sobrepeso espera acontecer um dia. Para comprovar sua eficácia, ela arranjou uma cobaia perfeita. "Comecei a testar em mim e, mesmo já sendo magra, perdi três quilos em um mês, sem fazer nenhum esforço. Na metade de uma salada, eu já estava satisfeita", relembra.

A partir desse dia, ela passou a introduzir o fitoterápico na prescrição de boa parte dos pacientes que a procuravam com a intenção de emagrecer. "Usei o Hoodia por dois anos e nunca constatei nenhum efeito colateral negativo, muito pelo contrário. Para mim, ele é a oitava maravilha do mundo". É não; era. A alegria provocada pela aparição dessa pílula natural da saciedade acabou rápido. É que a Anvisa, Agência Nacional da Vigilância Sanitária, no dia 16 de fevereiro último, determinou a proibição da manipulação e até da propaganda do medicamento em território nacional. O motivo? Eficácia e segurança não comprovadas pelos estudos científicos.

"Fiquei muito surpresa e triste com a proibição. O que a Anvisa alega é que os estudos não comprovam sua eficácia. Mas não entendo, porque nunca os fitoterápicos passaram por estudos assim", reclama Tamara. Para ela, o buraco é bem mais embaixo. "Quem vendia outros inibidores de apetite com certeza ficou incomodado. Não tenho como saber as reais razões, mas o fato é que a obesidade é um problema seríssimo e o Hoodia não faz mal", defende. A substância, que era manipulada em farmácias e chegava ao público na forma de comprimidos, era ingerida antes do almoço e do jantar e, segundo a nutróloga, não tinha nenhum efeito negativo. "O único problema dele é que não funcionava para todas as pessoas. Algumas simplesmente não tinham sua fome reduzida".

Aqueles que se esbaldaram com o resultado positivo da pílula da saciedade, não se importavam em desembolsar entre R$ 100,00 e R$ 200,00 para comprá-la todo mês. Antes disso, porém, eram alertados de que, em nenhum momento, ela poderia substituir uma refeição. "Não é que a pessoa perdia totalmente a vontade de comer, ela apenas não ficava desesperada para isso, não tinha mais aquela fome louca", recorda Tamara, que inveja seus amigos americanos por terem liberado a venda do Hoodia. "Lá (nos EUA), existe até pirulito de Hoodia com adoçante. Você dá uma chupadinha e emagrece", diverte-se a médica.

Por aqui, até segunda ordem, é melhor esquecer que um dia essa planta dita milagrosa existiu. Até porque, na internet, já estão pipocando sites que dizem vender o autêntico elixir da boa forma. Como a autenticidade não é comprovada - e já tem gente querendo plantar o cacto no Brasil, o que é proibido pelas autoridades africanas -, o melhor mesmo é optar por outras maneiras de emagrecer.

Tudo que é bom dura pouco?
Na contramão do fervoroso depoimento de Tamara a favor do Hoodia Gordonii está a opinião dos endocrinologistas, que nunca aceitaram muito bem a liberação do medicamento no Brasil. "Fiquei sabendo de sua existência, mas como ainda não havia evidências científicas de sua eficácia, preferi não saber mais", afirma a endócrino Viviane Cesarino Mattos Paro, do Centro Endócrino Paulista, na capital. Segundo ela, que jamais usou o medicamento em suas prescrições, era preciso esperar o aval da Anvisa para introduzi-lo nos tratamentos de emagrecimento.

Fonte Guia da Semana

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